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L'enfant terrible

Amado por alguns (que compram seus vinhos em quantidades que permitem sua sobrevivência), criticado por muitos e até detestado por outros, Marco Danielle é a ovelha negra entre os produtores nacionais.

Dono de um "projeto" e não de uma vinícola, ele quase se curvou ao mercado mais tradicional quando se juntou a uma dupla de investidores para fazer vinhos em volumes maiores e de vinhedos próprios. Não deu certo. "Percebi que é mais fácil comercializar uma pequena produção que seja autoral, e que leve adiante meu projeto, do que querer crescer para atingir um mercado que chegou até mim pela diferença e não pela semelhança, e perdê-lo no meio do caminho", conta Danielle.

Em 2010 (uma safra difícil tanto para pequenos quanto para grandes produtores), o Projeto Tormentas de Marco Danielle engarrafou apenas 1.100 garrafas. Neste ano, a produção foi bem melhor (ao menos o dobro), mas continua pequena e, em sua nona safra (a primeira comercializada foi em 2004), Danielle afirma que o Brasil dificulta a vida de quem quer fazer tudo dentro da lei, pois não faz diferença entre um produtor de 20 milhões de litros e um de 3 mil: "Empresarialmente é muito difícil sair do lugar, pois as regras - que temos que seguir para estarmos dentro da lei - são cada vez mais limitantes. É como se a ganância de alguns criasse uma reserva de mercado que impossibilita a diversidade", afirma.

Os vinhos de Marco Danielle fazem jus ao nome do projeto. São capazes de atormentar aqueles que esperam bombas de frutas vermelhas, dulçor no final de boca e outras conformidades. Eles não têm adição de SO2, segundo Danielle não por algum efeito dramático, mas, sim, pela crença de que o conservante tem influência negativa no produto final. Os vinhos também não são filtrados e suas uvas não vêm de vinhedos próprios, sendo garimpadas entre produtores do Rio Grande do Sul, nos quais ele confia. São, na realidade, vinhos únicos, não conformistas, que irão bem nas taças dos curiosos sem preconceito.

Os pequenos produtores no Brasil existem nas formas mais variadas, seja um apreciador que resolveu dedicar os anos de sua aposentadoria ao prazer adquirido em degustações e viagens (caso da vinícola catarinense Pericó, do empresário aposentado Wandér Weege), seja um empresário cuja renda principal não vem da venda de vinhos (caso de Nathan J. Churchill, que comprou uma barrica de carvalho americano e as uvas de um enólogo amigo para fazer um dos vinhos brasileiros mais notáveis - o Cabernet Franc Churchill), ou amigos que decidem investir em um negócio por vezes diferente de sua antiga área de atuação, como é o caso da Aracuri, no município de Muitos Capões, norte do estado do Rio Grande do Sul, perto de Vacaria.

O jovem enólogo Cristiano Zorzan deixou há três anos seu trabalho na Embrapa para ser contratado pela pequena vinícola cujas micro-vinificações ele mesmo fazia, e cuidar dos vinhedos e dos vinhos. "Os dois sócios são amigos que apreciam vinhos, têm ligação com a terra da região e boas relações comerciais", explica, "e me deram a liberdade de fazer vinhos honestos, delicados e harmônicos, com a cara do terroir de Campos de Cima da Serra".

Embora os 10,2 hectares de vinhedos sejam próprios, a pequena vinícola precisa terceirizar seus processos, colocando seus tanques e barricas em instalações maiores,de outra vinícola. Tudo sob o olhar atento de Zorzan, que controla de perto todas as fases, quase como se a área de produção estivesse em terras próprias.

Imbuídos do respeito pelo terroir que norteia os dois rótulos que estão no mercado, mesmo tendo sofrido perdas da ordem de 90% de suas uvas nesta safra - por conta da chuva de granizo que caiu sobre os vinhedos em novembro do ano passado -, a Aracuri não comprou uvas de ninguém. Selecionou com mais rigor sua pequena produção restante e pretende engarrafar apenas o que de mais especial ficou: "Faz parte de nosso conceito trabalhar assim, respeitando a natureza e não disfarçando os vinhos", resume Zorzan.


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